quarta-feira, 25 de novembro de 2009
Subexistência
Os passos dele, sorrateiros, rangeram as tábuas do assoalho.
Enfim veio, depois de longos e silentes dias.
Talvez houvesse esperança, ela para si dizia.
A chave retrai a tranca, a porta se abre em ruído.
Deitada nua, um sono fingido, para ser despertada a beijos.
Brincadeira de amantes, que tanto prazer lhes dera.
Mas já não havia beijos... Nem carícias, nem carinho.
Tomou-a porque ainda era sua, para usar como quisesse
E, saciado, acariciou-lhe a cabeça, como a um animal obediente.
- Você me serviu bem.
E a mulher riu de si, por ter pensado q era gente.
Já da porta lhe disse, com voz suave e fria:
– Prepare suas coisas, cedo vamos à feira.
Ela lhe procurou os olhos.
Não havia nada lá. Nada além de vazio.
Acenou com a cabeça, mas não baixou o olhar.
Ele se voltou e saiu,
E ela não permitiu mais que uma lágrima rolar.
E lá está ela na feira, de bonito vestido branco.
Rápida negociação, um novo dono.
Ele aperta suas carnes e se ri contente.
Fez excelente negócio!
Uma bela e saudável crioula,
Com um crioulinho em seu ventre.
quarta-feira, 18 de novembro de 2009
Ser ou estar feliz?
Parece-me que a felicidade é mesmo um estado de espírito.
A mesma situação, o mesmo lugar,
As mesmas pessoas,
A mesma brisa, ou falta dela...
E onde ainda agora era alegria, só resta tristeza,
Onde havia certeza, transborda por quês.
Sou uma incógnita para mim mesma,
A indecifrável incerteza do ser.
Amanhã volto a sorrir.
E como veio a agonia,
Também assim partirá.
Mais um dia feliz!
Sorrisos e brilho no olhar.
Eu sou assim...
Às vezes sol, às vezes lua.
Pura, impura, velada, nua...
Bem queria ser toda calor, e seria...
Se em momentos fugazes, ou não,
A face sombria e melancólica,
Que é parte do todo de mim,
Não me esfriasse o peito e me fizesse só,
Mesmo rodeada de gentis e amigáveis rostos.
Alguém há que sinta felicidade por inteiro?
A parte que sou neste instante nada sente, além de vazio...
Não sei se à noite ou pela manhã, ou se daqui a segundos,
Serei, novamente, a parte de mim que é feliz.
Eu mal sei o que sou neste instante,
Nem delinear o que sinto.
O que poderia saber do seguinte?
Tenho comigo que quem pensa saber tudo de si,
Não se conhece tão bem assim.
A mesma situação, o mesmo lugar,
As mesmas pessoas,
A mesma brisa, ou falta dela...
E onde ainda agora era alegria, só resta tristeza,
Onde havia certeza, transborda por quês.
Sou uma incógnita para mim mesma,
A indecifrável incerteza do ser.
Amanhã volto a sorrir.
E como veio a agonia,
Também assim partirá.
Mais um dia feliz!
Sorrisos e brilho no olhar.
Eu sou assim...
Às vezes sol, às vezes lua.
Pura, impura, velada, nua...
Bem queria ser toda calor, e seria...
Se em momentos fugazes, ou não,
A face sombria e melancólica,
Que é parte do todo de mim,
Não me esfriasse o peito e me fizesse só,
Mesmo rodeada de gentis e amigáveis rostos.
Alguém há que sinta felicidade por inteiro?
A parte que sou neste instante nada sente, além de vazio...
Não sei se à noite ou pela manhã, ou se daqui a segundos,
Serei, novamente, a parte de mim que é feliz.
Eu mal sei o que sou neste instante,
Nem delinear o que sinto.
O que poderia saber do seguinte?
Tenho comigo que quem pensa saber tudo de si,
Não se conhece tão bem assim.
quarta-feira, 4 de novembro de 2009
Conto - O doce prazer do amargor
Havia muitas pessoas no parque. Muitas vozes e risadas. A noite estava linda e a lua imperava, cheia e soberana no céu. As muitas luzes coloridas deixavam tudo mais bonito e a música animada completava o cenário de alegria. Fui então relaxando, gradativamente.
Eu estava um tanto triste, meio vazia de alma e só estava ali por insistência da Sônia. Entretanto, o clima festivo do parque serviu para desanuviar a minha mente e decidi aproveitar e me divertir.
Sônia estava sozinha e aflita por encontrar um namorado. Assim, escolheu a barraquinha onde havia uma concentração maior de homens e me chamou para irmos até lá, como quem não quer nada. Aceitei, mas apenas por causa dela. Bem, talvez um pouquinho por mim também.
Era uma barraca de jogo de argolas e havia poucas mulheres ali. Sônia acertou em cheio na escolha do lugar de caça, pois em pouco tempo já havia se esquecido completamente de mim e conversava, muito animada, com um rapaz ali perto. Dei de ombros e fiquei acompanhando as apostas e observando as pessoas. Foi então que meus olhos se depararam com o dele pela primeira vez. Era um rapaz muito charmoso, uma mão estava no bolso e com a outra, atirava argolas com precisão. Ele sorriu abertamente para mim logo que nossos olhares se encontraram, e me disse:
- Vou ganhar um prêmio pra você.
Sei que meus olhos se arregalaram. Eu não esperava uma atitude tão direta, mas não posso negar que gostei bastante. Fiquei em silêncio e expectativa. Com um sorriso confiante ele lançou a argola e acertou. Soltou uma gostosa gargalhada e não pude deixar de rir junto. Ele pegou o prêmio, uma maçã do amor, e me deu, com um floreio. Aceitei e agradeci. Passamos a caminhar por ali mesmo, de mãos dadas, conversando. Quis saber meu nome e eu lhe disse que era Ana. Seu nome era Francisco. Falou-me de sua vida. Ele saiu da roça aos 18 anos, sozinho, para tentar a vida na cidade grande. Decepcionou-se. Mas não se deixou abater pela desilusão, nem por estar só. Não conseguiu emprego, então aprendeu a se virar com o trabalho informal. Entre tantas outras atividades, ele fazia maçãs do amor.
Achei engraçado me ganhar uma maçã do amor quando ele próprio também as fazia. Disse-me que era pra eu comparar quando provasse a dele, apesar de não haver comparação, segundo ele mesmo. Isso me fez rir. Francisco era muito seguro de si, e nada modesto. Sua história me comoveu. Era um homem vitorioso de vitórias invisíveis a olhos nus.
Francisco era muito envolvente. Não era esteticamente bonito, mas lhe sobrava charme e carisma. Encantou-me seu jeito de ser e falar, de me olhar e sorrir. Fez-me sentir a mais bela e interessante das mulheres. Senti-me embriagada, tão fascinada que nem me dei conta de que estávamos então num cantinho afastado onde já não se ouvia os sons do parque tão altos como antes. Ele então parou, chegou bem pertinho e me roubou um beijo, na boca.
Nem sei descrever o turbilhão de sensações dentro de mim naquela hora. Eu havia tido poucos namorados e nenhum beijo na boca. Fui criada no interior, debaixo do braço de ferro do meu pai. O beijo me fez sentir livre e cativa ao mesmo tempo. Entretanto, tudo o que me ensinaram na adolescência a respeito das mulheres fáceis e que se dão ao desfrute vieram à minha mente como um banho de lucidez gelada.
Como pude permitir que Francisco me beijasse logo da primeira vez? O que ele pensaria de mim? Fui dramática, eu sei, mas naquele tempo eu era assim, muito ingênua e inexperiente. Minha mãe e irmãs mais velhas nunca me falaram dos detalhes íntimos de um relacionamento. Devo ter pensado que engravidaria.
Francisco tentou me tranqüilizar e me segurou para evitar que eu fugisse. Caminhamos até um lugar mais claro e ele percebeu que eu estava à beira das lágrimas. Pegou meu queixo e, delicadamente, forçou-me a olhar seus olhos. Eu estava envergonhada e ele me disse que eu não devia ficar assim, que estava encantado com meu jeito e queria que namorássemos.
Minha vida não era propriamente feliz pelo vazio inexplicável que eu sentia dentro de mim. Estava longe de minha família e sentia falta de alguém que se importasse comigo. Eu era tola o bastante para crer que a minha felicidade se encontrava nas mãos de alguém. Um cavaleiro de armadura brilhante.
Francisco me disse que apesar do pouquíssimo tempo juntos, sentia que poderia ser eu a mulher que ele esperava e com quem viveria por toda a vida. Meu coração pulou no peito. Entretanto, disse-me que havia um teste e assim se certificaria de ser eu essa pessoa. Quando perguntei do que se tratava o tal teste, Francisco disse que seria a minha reação diante de algo que precisava me mostrar. Mesmo sem querer demonstrar, era nítido o seu nervosismo.
Eu o ouvia atenta, e sem imaginar o que ele queria me mostrar, meu olhar o acompanhou a tirar a mão direita do bolso. Qual foi minha surpresa ao ver que esta mão era deficiente. Sequinha e encurvada, horrível. Emudeci e sei que empalideci também. Numa retrospectiva até o momento em que nos vimos pela primeira vez, dei-me conta de que sua mão direita ficou o tempo todo escondida no bolso do casaco que usava. Senti-me enganada e transtornada.
Ele me explicou que quando era criança sofreu de poliomielite e ficou deficiente da mão. Eu mal o ouvia. Não sabia o que fazer. Minha vontade era sair correndo e esquecer-me de um dia tê-lo visto. Respirei fundo e não fiz nada disso. Olhei seus olhos apreensivos e sua boca bonita que agora já não mostrava o sorriso brejeiro. Estava um tanto trêmula, denunciando a insegurança e apreensão que Francisco sentia, mas mesmo assim, insistia num sorriso triste, seu queixo erguido.
Diante do meu silêncio prolongado, Francisco obteve sua resposta. Desviou o olhar e o arremedo de sorriso se tornou um esgar amargo. Olhou para a lua e abrindo os braços disse:
- Pensei que fosse você, mas não é. – Olhou-me, recolheu os braços e disse:
- Ela me aceitará e amará como sou.
Virou-me as costas e antes de começar a se afastar ainda disse:
- Adeus Ana. Façamos de conta que sonhamos. Para mim, um sonho lindo, para você, um pesadelo, talvez.
Olhei-o enquanto se afastava devagar. Meu coração pesou, doeu. Senti culpa e não me dei tempo de refletir. Corri ao seu encontro e disse, angustiada:
- Você não esperou a minha resposta.
Ele me olhou com seriedade por alguns segundos intermináveis e enfim me perguntou qual era a resposta. Eu lhe disse que aquilo não me impediria de namorá-lo, que fiquei surpresa apenas e que eu o aceitava sim, como ele era.
Eu queria que ele dissesse “não”. Que seu orgulho não o permitisse ma aceitar após a minha reação inicial, mas não foi isso o que aconteceu. Se alguém imaginar o sorriso mais radiante do mundo, então talvez consiga entender como foi o sorriso de Francisco. Naquele momento, por uma fração de segundo, achei que valia à pena estar mentindo.
No entanto, o vazio de alma ficou maior. Os dias passaram e perdi a vontade de ver o Francisco. Ele insistiu, foi tão gentil... Parecia me amar tanto. Como desprezá-lo? Eu não queria apagar o intenso brilho de admiração, quase veneração em seu olhar, nem o sorriso apaixonado daqueles lábios. Mas sentia vergonha. Essa é a mais pura e feia verdade, eu tinha vergonha de namorar um homem aleijado. Mas namorei e nem sei bem como, em pouco tempo nos casamos.
Durante muito tempo, achei que me casei por pena. Devo ter demonstrado isso a Francisco porque ele me fez sofrer demais. A pessoa doce do princípio, não sei como, transformou-se num outro homem. Talvez eu tenha causado a transformação dele. Eu o enganei quando disse que não me importava com sua deficiência, todavia, não fui boa atriz.
Francisco teve várias amantes, e por ironia do destino, quando passou a me maltratar eu o amei. Sofri, antes por não sentir amor e depois por sentir demais. Orgulho ferido? Talvez.
Ele me deu quatro filhas, meu maior tesouro, seu maior legado. Eram minhas queridas, então percebi que já não precisava amá-lo mais. Dediquei-me às meninas. Elas sabiam retribuir o meu amor.
Francisco não tinha um bom relacionamento com nossas filhas. Ele queria um menino que nunca veio. E com elas eu me vinguei. Nunca escondi minha desilusão a respeito dele para elas. Eu sofria, elas sofriam comigo e ele era o vilão. Elas também tinham medo dele e seu comportamento taciturno incentivava isso. Ele era irascível muitas vezes.
O tempo passou, as meninas cresceram. Cada uma seguiu seu destino e após trinta anos de casamento, lá estávamos apenas eu e Francisco novamente. Vivendo na mesma casa, mas, em sentimentos, a quilômetros de distância um do outro. Ele tentou se redimir. Desistiu das outras e passou a só ter olhos para mim e para a família. Implorou por nosso amor. Conseguiu o das meninas, mas não o meu.
Depois de tudo o que me fez, impossível amá-lo. Perdoá-lo? Nem pensar. Eu que o aceitei, sendo ele um aleijado. Deveria ter sido grato a mim por toda a vida. Desprezou-me, traiu-me. Algo assim não se perdoa nunca. Eu era a vítima, não ele.
Entretanto, meu Francisco caiu doente e partiu para sempre.
Vazio na alma é a falta de algo que “não te existe”, mas com o qual sonhas por toda a vida e, por vezes, nem sabes o que é.
Imaginei que perder Francisco não seria perda. Secretamente, porque não se revela um desejo desses, eu queria ficar só, quis que ele se fosse, quis sentir a paz da liberdade. Mas quando aconteceu nada disso me sobreveio. Chorei sua morte com uma dor que não sabia capaz de sentir. Não houve liberdade alguma. E só quando já era tarde, dei-me conta de que era melhor com ele.
Hoje sei que o amei desde o primeiro momento em que o vi. Eu o amei a cada dia de nossas vidas juntos. Eu o amei quando ele me fazia sofrer, e o amava mesmo quando o feria com palavras e desprezo. Eu sempre amei o Francisco, e ele se foi sem saber. E como saberia se nem mesmo eu sabia? Entretanto, tenho como consolo a dor, a falta e o lamento. Pobre de mim que sempre sofri.
***
A graça da vida está na busca, não no encontro. Alcançar é perder a graça.
Idéias e palavras
Eu sempre gostei das letras. Aprendi a ler aos seis anos de idade e desde então esses símbolos mágicos me fascinam. A escrita perpetua as idéias, e não faz acepção de temas ou pessoas. Acolhe a qualquer que por ela se interesse e dela queira fazer uso, e as imortaliza.
Atualmente a minha leitura é mais seletiva, mas ainda encaro, numa boa, as bulas de remédios, os manuais de elétros, os rótulos de produtos, no supermercado... As letras me atraem pelo poder de saber, que me podem proporcionar.
Apesar de não ser o único canal do saber, a leitura nos aprimora e nos permite ir além de nossas, aparentes, possibilidades. Ainda não pude conhecer as pirâmides do Egito, mas não precisei ir até lá pra saber que estão à margem do rio Nilo, que são mausoléus dos faraós, e que, das sete maravilhas do mundo antigo, são as únicas remanescentes. Outros foram e viram, pesquisaram e escreveram, e eu li.
Dentre as tantas influências que moldarão nossa personalidade, no decorrer de nossa vida, a leitura pode ser fator de suma relevância, ao nos apresentar idéias de outras mentes, suas experiências, questionamentos e conclusões. Mesmo a literatura considerada inculta, por alguns, como os romances da Abril Cultural, que eram a minha paixão da adolescência, e que alguns amigos denominavam lixo literário, possui seu valor na formação cultural.
As histórias que eu lia me resgatavam do meu mundo conturbado de adolescente como uma amiga que me tomava pela mão, dizendo “vem”, arrastando-me consigo para um novo mundo de aventuras, choros, risos, mistério, suspense, paixão e romance. Os livros que li me revelaram haver mais vida, além dos limites daquele meu mundo apertadinho. Conceitos e verdades diferentes das minhas e quanto mais eu lia, menos sabia, porém, mais me questionava, pensava e buscava entender... E, sem perceber, aprendia.
Então, algumas idéias se aventuram e mais questionamentos também. E cá estou pretendendo escrever sobre o que me vem à cabeça e ainda contando com amigos que se tornem leitores e co-escritores comigo. Pra aprendermos mais, transformando nossas idéias em palavras.
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